Quando o corpo dói, mas quem sofre é a vida inteira.
- Ricardo Moscardi
- 30 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
A dor deveria ser um sinal temporário, uma resposta natural do corpo para indicar que algo precisa de atenção. No entanto, quando ela persiste por semanas, meses ou anos, ultrapassa o limite físico e passa a atingir diversas dimensões da vida: o humor, o sono, a energia, a produtividade, as relações sociais e até a forma como a pessoa se enxerga. Essa é a realidade de quem convive com dor crônica e, especialmente, dor neuropática — um tipo de dor que nasce no próprio sistema nervoso e que o cérebro não consegue simplesmente “desligar”.
A dor crônica deixa de ser consequência de uma lesão e passa a ser uma doença do sistema nervoso. Isso acontece porque o cérebro e a medula sofrem alterações importantes, como a sensibilização central, que torna os neurônios hiper-reativos, e a perda dos mecanismos naturais de inibição da dor. Com o tempo, até estímulos leves tornam-se dolorosos e o sistema nervoso funciona em estado de alerta contínuo. Essa é uma das razões pelas quais tantas pessoas relatam que “o corpo dói, mas quem sofre é a vida inteira”.
A dor não afeta apenas o físico — ela reorganiza a rotina e, muitas vezes, isola. Na vida social, convites começam a ser recusados por medo de piorar os sintomas ou por pura exaustão. A pessoa não se afasta porque quer, mas porque não consegue acompanhar o ritmo. Na família, isso se traduz em impaciência, irritabilidade e dificuldade em participar de tarefas simples. Muitas vezes, familiares interpretam como desinteresse aquilo que, na verdade, é sofrimento real e silencioso.
No trabalho, a dor crônica compromete concentração, tomada de decisão e capacidade produtiva. Não se trata de falta de vontade, mas do impacto direto que a sensibilização central tem sobre atenção e cognição. A vida emocional também é profundamente afetada. Alterações nos neurotransmissores envolvidos na dor crônica explicam por que quadros de ansiedade e depressão são tão comuns nesses pacientes. O sofrimento é tanto físico quanto emocional.
Com o tempo, a dor rouba autonomia. Atividades básicas, como caminhar com segurança, dirigir, praticar esportes, viajar ou simplesmente dormir, tornam-se desafiadoras. Isso abala diretamente a identidade e a autoconfiança. Muitos pacientes descrevem um sentimento de perda de si mesmos, como se deixassem de ser quem eram antes do início da dor.
Apesar de tudo isso, há uma verdade essencial que precisa ser dita: dor tratável é vida recuperável. A medicina moderna compreende profundamente os mecanismos da dor crônica e oferece recursos eficazes para interromper esse ciclo. A abordagem correta combina avaliação especializada, terapias multidisciplinares e, quando necessário, técnicas avançadas como a neuromodulação e as intervenções funcionais. O objetivo não é apenas reduzir a dor, mas restaurar qualidade de vida, autonomia e esperança.
Quando o tratamento é conduzido com precisão e individualização, pacientes recuperam muito mais do que movimento. Recuperam humor, energia, vínculos, produtividade e identidade. A dor pode ser persistente, mas ela não precisa ser definitiva. Com a atuação integrada da neurociência, da reabilitação e da neurocirurgia funcional, é possível reorganizar o sistema nervoso, silenciar o sofrimento e devolver dignidade ao viver.






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