top of page

Da primeira dor à vida de volta

Quase sempre a história da dor crônica começa com um episódio que parece simples: um incômodo nas costas, um formigamento no pé, uma dor que aparece ao final do dia.

No início, a pessoa acredita que “vai passar”.

Mas ela não passa. Ela se intensifica, muda de padrão, se espalha, ocupa espaços da vida que não deveria ocupar: o sono, o humor, o convívio, o trabalho.


A dor, quando persiste, deixa de ser apenas um sintoma.

Ela se torna uma doença do sistema nervoso.


A ciência moderna já não vê a dor crônica como consequência apenas de lesões físicas; ela é entendida como uma alteração neurobiológica profunda, que envolve o cérebro, a medula espinhal e todo o sistema nervoso periférico.


Quando algo machuca seu corpo, receptores sensoriais enviam sinais à medula, que os encaminham ao cérebro.

Mas, se a dor dura muito tempo, algo mais complexo ocorre:


O cérebro “aprende a sentir dor”


Esse processo é chamado de sensibilização central.

Ele transforma os circuitos da dor em circuitos hiperreativos. É como se o sistema nervoso ficasse permanentemente em “modo alerta”.


Isso gera fenômenos como:

  • Alodinia: dor ao toque leve

  • Hiperalgesia: dor exagerada para estímulos mínimos

  • Hiperpatia: Aumento da percepção de dor com estimulos repetitivos


A neuroimagem funcional mostra que pacientes com dor crônica têm:

  • hiperatividade no tálamo,

  • alterações no córtex pré-frontal,

  • perda de volume no hipocampo,

  • reorganização das vias da medula.


Não é exagero dizer: a dor crônica muda o cérebro.

Mas o contrário também é verdadeiro: o tratamento certo pode reequilibrá-lo.


Porque tratam apenas o local da dor e não o sistema nervoso.

Anti-inflamatórios, relaxantes, analgésicos… todos têm papel importante, mas não corrigem os circuitos hiperexcitados da dor crônica.


Além disso:

  • A dor neuropática não responde bem a analgésicos comuns.

  • A dor centralizada não melhora apenas com fisioterapia isolada.

  • A dor refratária não cede com ajustes de medicação.

  • Quando a dor passa de aguda para crônica, a abordagem precisa mudar também.


Para tratar de verdade, é necessário identificar a origem neurológica da dor.

Isso envolve:

• Avaliação clínica detalhada

Histórico da dor, padrão, intensidade, fatores de piora e melhora, impacto funcional.

• Exames de imagem

Ressonância, tomografia, estudos específicos de coluna e nervos.

• Testes neurológicos e funcionais

Identificação de compressões nervosas, alterações sensoriais, falhas motoras.

• Exclusão de outras causas

Doenças sistêmicas, autoimunes, metabólicas, inflamatórias.

Quando tudo aponta para um padrão neuropático ou refratário, é hora de entrar na abordagem avançada.


A neurocirurgia funcional e a neuromodulação trouxeram o maior avanço da história para quem convive com dor crônica.

Hoje, não tratamos apenas sintomas tratamos os circuitos neurais que produzem a dor.


🔹 Neuromodulação da medula (Estimulação Medular – SCS)

Um dispositivo semelhante a um marcapasso envia impulsos elétricos controlados à medula espinhal, “interrompendo” os sinais dolorosos antes que cheguem ao cérebro.

Indicado para:

  • dor neuropática intensa,

  • dor após cirurgias de coluna,

  • dor por lesão nervosa,

  • síndrome de dor regional complexa.

Resultados esperados:

  • redução significativa da dor,

  • melhora da mobilidade,

  • diminuição do uso de medicamentos,

  • retorno das atividades diárias.


🔹 Bomba de infusão intratecal

Dispositivo implantado que libera microdoses de medicamentos diretamente no líquor, focado no tratamento de dores oncológicas refratárias

Benefícios:

  • alívio intenso da dor

  • menor efeito colateral

  • ação precisa e contínua

O que mais impressiona não é apenas o alívio físico, mas tudo o que volta junto com ele:

  • a pessoa volta a sair de casa,

  • retoma o trabalho,

  • dorme melhor,

  • recupera a autonomia,

  • melhora o humor,

  • reduz a dependência de remédios,

  • reconstrói relações.


O paciente não recupera só o movimento.

Ele recupera o pertencimento, a rotina, a identidade.


A primeira dor pode ser apenas um aviso.

Mas tratá-la com precisão é o que determina se ela se tornará uma sombra permanente ou um capítulo superado.


Com os avanços da neurociência, da neuromodulação e da neurocirurgia funcional, hoje é possível reprogramar o cérebro, interromper o ciclo da dor e devolver a vida que ela tirou.


Cuidar da dor crônica é mais do que aliviar um sintoma.

É restituir dignidade, autonomia e esperança.

 
 
 

Comentários


bottom of page