Da primeira dor à vida de volta
- Ricardo Moscardi
- 1 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Quase sempre a história da dor crônica começa com um episódio que parece simples: um incômodo nas costas, um formigamento no pé, uma dor que aparece ao final do dia.
No início, a pessoa acredita que “vai passar”.
Mas ela não passa. Ela se intensifica, muda de padrão, se espalha, ocupa espaços da vida que não deveria ocupar: o sono, o humor, o convívio, o trabalho.
A dor, quando persiste, deixa de ser apenas um sintoma.
Ela se torna uma doença do sistema nervoso.
A ciência moderna já não vê a dor crônica como consequência apenas de lesões físicas; ela é entendida como uma alteração neurobiológica profunda, que envolve o cérebro, a medula espinhal e todo o sistema nervoso periférico.
Quando algo machuca seu corpo, receptores sensoriais enviam sinais à medula, que os encaminham ao cérebro.
Mas, se a dor dura muito tempo, algo mais complexo ocorre:
O cérebro “aprende a sentir dor”
Esse processo é chamado de sensibilização central.
Ele transforma os circuitos da dor em circuitos hiperreativos. É como se o sistema nervoso ficasse permanentemente em “modo alerta”.
Isso gera fenômenos como:
Alodinia: dor ao toque leve
Hiperalgesia: dor exagerada para estímulos mínimos
Hiperpatia: Aumento da percepção de dor com estimulos repetitivos
A neuroimagem funcional mostra que pacientes com dor crônica têm:
hiperatividade no tálamo,
alterações no córtex pré-frontal,
perda de volume no hipocampo,
reorganização das vias da medula.
Não é exagero dizer: a dor crônica muda o cérebro.
Mas o contrário também é verdadeiro: o tratamento certo pode reequilibrá-lo.
Porque tratam apenas o local da dor e não o sistema nervoso.
Anti-inflamatórios, relaxantes, analgésicos… todos têm papel importante, mas não corrigem os circuitos hiperexcitados da dor crônica.
Além disso:
A dor neuropática não responde bem a analgésicos comuns.
A dor centralizada não melhora apenas com fisioterapia isolada.
A dor refratária não cede com ajustes de medicação.
Quando a dor passa de aguda para crônica, a abordagem precisa mudar também.
Para tratar de verdade, é necessário identificar a origem neurológica da dor.
Isso envolve:
• Avaliação clínica detalhada
Histórico da dor, padrão, intensidade, fatores de piora e melhora, impacto funcional.
• Exames de imagem
Ressonância, tomografia, estudos específicos de coluna e nervos.
• Testes neurológicos e funcionais
Identificação de compressões nervosas, alterações sensoriais, falhas motoras.
• Exclusão de outras causas
Doenças sistêmicas, autoimunes, metabólicas, inflamatórias.
Quando tudo aponta para um padrão neuropático ou refratário, é hora de entrar na abordagem avançada.
A neurocirurgia funcional e a neuromodulação trouxeram o maior avanço da história para quem convive com dor crônica.
Hoje, não tratamos apenas sintomas tratamos os circuitos neurais que produzem a dor.
🔹 Neuromodulação da medula (Estimulação Medular – SCS)
Um dispositivo semelhante a um marcapasso envia impulsos elétricos controlados à medula espinhal, “interrompendo” os sinais dolorosos antes que cheguem ao cérebro.
Indicado para:
dor neuropática intensa,
dor após cirurgias de coluna,
dor por lesão nervosa,
síndrome de dor regional complexa.
Resultados esperados:
redução significativa da dor,
melhora da mobilidade,
diminuição do uso de medicamentos,
retorno das atividades diárias.
🔹 Bomba de infusão intratecal
Dispositivo implantado que libera microdoses de medicamentos diretamente no líquor, focado no tratamento de dores oncológicas refratárias
Benefícios:
alívio intenso da dor
menor efeito colateral
ação precisa e contínua
O que mais impressiona não é apenas o alívio físico, mas tudo o que volta junto com ele:
a pessoa volta a sair de casa,
retoma o trabalho,
dorme melhor,
recupera a autonomia,
melhora o humor,
reduz a dependência de remédios,
reconstrói relações.
O paciente não recupera só o movimento.
Ele recupera o pertencimento, a rotina, a identidade.
A primeira dor pode ser apenas um aviso.
Mas tratá-la com precisão é o que determina se ela se tornará uma sombra permanente ou um capítulo superado.
Com os avanços da neurociência, da neuromodulação e da neurocirurgia funcional, hoje é possível reprogramar o cérebro, interromper o ciclo da dor e devolver a vida que ela tirou.
Cuidar da dor crônica é mais do que aliviar um sintoma.
É restituir dignidade, autonomia e esperança.







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